Continuo minha jornada ainda sem compreender aonde vai chegar. Creio que nessa viagem o importante é o processo, o caminho, não o ponto de final. Estou tentando apreciar a paisagem, a experiencia e os contatos durante a caminhada. Assim, dia após dia novos detalhes se acrescentam à minha bagagem e outros são deixados pelo caminho. Quero chegar no final leve, quero deixar para trás tudo aquilo que não necessito. Quero ser despida de meias verdades e saber a que vim afinal.
Às 11:20 da noite de ontem, um pássaro entrou pela janela de meu quarto e assentou-se em uma caixa que estava em cima do guarda-roupas. Eu estava ainda sentada na cama pesquisando alguma coisa na internet. Olhei-o cuidadosamente. Era pequeno. Estava pousado tranquilamente sobre a caixa.
“Não devo afugentá-lo.” Pensei. Levantei-me,
fechei a janela com cuidado e puxei a cortina e, em
seguida apaguei a luz certificando-me de que ele permanecia ali, no mesmo
lugar.
“Se ele se debater para sair mais
tarde, eu o ajudo.” Pensei enquanto acostava em meu travesseiro grata por
sentir sono.
Na
manhã seguinte procurei o bicho, mas não o encontrei, acreditei que houvesse
encontrado alguma saída entre as poucas aberturas da casa.
Em
minha terapia naquela manhã relatei o fato à psicoterapeuta que me perguntou o
que significava aquilo.
“Qual o significado de um pássaro?”
me perguntou.
“Liberdade... ?”
respondi insegura.
“Claro!” exclamou ela. “Seu filho
sem dúvida quer lhe mostrar que encontrou a liberdade que estava buscando.” Para
ela, e de certa forma para mim também, nenhum acontecimento é casual. Especialmente
em momentos dramáticos os acontecimentos trazem figuras que compõe a realidade
e tratam de dar sentido aos fatos. Fiquei feliz. Será que meu filho estaria em
enviando uma mensagem como outros fatos que já haviam ocorrido depois de sua
partida?
Comentei
com ela os pensamentos que tenho tido e que me sinto como se houvesse vindo à
esta vida para despir-me de preconceitos.
“Sinto que estou sendo descascada.” Afirmei.
“Como uma árvore do cerrado, sabe? Essas com cascas grossas. Sendo descascada,
esfolada até chegar ao cerne.” Ela sorriu e balançou a cabeça concordando. Foi a imagem que me
ocorreu para descrever a sensação de que um a um meus preconceitos estavam se
desfazendo, mas à custa de muita dor.
“A dor amplia nossa visão da vida.” Disse
ela. “É um aprendizado sim, aquele no qual você passa a ver o outro com outros
olhos, que passa a ver o mundo com amplitude e o analisa com pensamentos
próprios desfazendo-se de ideias pré-concebidas por outros ou pela sociedade de
forma geral.”
Um das maiores e mais difíceis lições a serem aprendidas para mim é, com certeza a aceitação da inevitável morte. Creio que todos temos problemas e tabus relativos a este tema. É o material proibido, a matéria adiada, a verdade desagradável que deve ser evitada para não nos tirar o conforto que vivemos no momento presente e para nos desviar de confrontarmos aquilo que é natural e faz parte do que compõe o ser humano.
“Posso ler algo que escrevi?” perguntei.
“Posso ler algo que escrevi?” perguntei.
“Claro.” Respondeu ela gentil como sempre.
"Esta experiência me
tem mostrado que a morte está intrínseca à vida assim como a vida à morte.
–Comecei - A
vida contém a morte. A cada dia, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo ou
milésimo de segundo morremos e, nessa
morte está a vida. É como se uma e outra dançassem a mesma música no baile do
tempo entrelaçadas e desfrutando uma da companhia da outra. Ambas se co-dependem
e uma se vangloria na outra. Não são opostas, como fomos ensinados a crer. São
apenas imagem e sombra brincando no carrossel eterno da existência. Sem a morte não há porque ter vida e sem a
vida não existe morte. Essa imagem nublada projetada em nossa mente como o
ponto final nada mais é que um refúgio para os cansaços dos viventes. Uma pausa
na viagem. Um fôlego antes da batalha."
“Você
descreve aí a dualidade da vida. Não há dia sem noite, alegria sem tristeza,
saúde sem doença.” Continuou ela. “O problema é que em nossa sociedade ocidental
fomos ensinados o apego. Com o apego vem o amor e com o amor o sofrimento. Esse
amor que na verdade não é amor, porque o verdadeiro amor liberta. O amor apego
é egoísmo e é doloroso.”
“Bem,
acho que estou progredindo.” Afirmei satisfeita.
Quando
cheguei em casa procurei pelo pássaro uma vez mais. O encontrei morto sobre o tapete ao lado da cama. Não tinha sinais de ferimentos e ainda estava morno. Seu corpinho frágil estava flexível como se me houvesse
esperado para morrer.
“Veio
para morrer perto de mim.” Pensei.
Talvez se tratasse de um pássaro velho ou, quem sabe, estava doente. O fato é que
ele queria morrer e veio para morrer perto de mim. Talvez sentisse que eu
compreenderia sua partida. E eu sinto que sou a beneficiária de toda esta experiência.
“Será que meu
filho veio para morrer perto de mim também?" Me perguntei.Que imensas lições a vida e a morte nos tem a ensinar. Estamos envoltos neste processo existencial sujeitos a todo tipo de experiência, mas elas somente passarão para nossa alma se forem processadas, aceitas como inevitáveis e somente quando formos capazes de agradecer por elas com sinceridade.
“Eu estou
aprendendo muito com o André.” Disse a terapeuta sorrindo enquanto saíamos do consultório naquela manhã. Ela comentava lembrando a nós duas que esse processo de análise tem a ver com partida dele e sua jornada sobre a terra.
“Eu sei.” -Afirmei
orgulhosa- “Ele é muito especial.”


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