terça-feira, 15 de outubro de 2013

O pássaro (considerações sobre vida e morte)

       



      Continuo minha jornada ainda sem compreender aonde vai chegar. Creio que nessa viagem o importante é o processo, o caminho, não o ponto de final. Estou tentando apreciar a paisagem, a experiencia e os contatos durante a caminhada. Assim, dia após dia novos detalhes se acrescentam à minha bagagem e outros são deixados  pelo caminho. Quero chegar no final leve, quero deixar para trás tudo aquilo que não necessito. Quero ser despida de meias verdades e saber a que vim afinal.
   Às 11:20 da noite de ontem, um pássaro entrou pela janela de meu quarto e assentou-se em uma caixa que estava em cima do guarda-roupas. Eu estava ainda sentada na cama pesquisando alguma coisa na internet. Olhei-o cuidadosamente. Era pequeno.  Estava pousado tranquilamente sobre a caixa.
“Não devo afugentá-lo.” Pensei. Levantei-me, fechei a janela com cuidado e puxei a cortina e, em seguida apaguei a luz  certificando-me de que ele permanecia ali, no mesmo lugar.
“Se ele se debater para sair mais tarde, eu o ajudo.” Pensei enquanto acostava em meu travesseiro grata por sentir sono.
                Na manhã seguinte procurei o bicho, mas não o encontrei, acreditei que houvesse encontrado alguma saída entre as poucas aberturas da casa.
                Em minha terapia naquela manhã relatei o fato à psicoterapeuta que me perguntou o que significava aquilo.
 “Qual o significado de um pássaro?” me perguntou.
“Liberdade... ?” respondi  insegura.
“Claro!” exclamou ela. “Seu filho sem dúvida quer lhe mostrar que encontrou a liberdade que estava buscando.” Para ela, e de certa forma para mim também, nenhum acontecimento é casual. Especialmente em momentos dramáticos os acontecimentos trazem figuras que compõe a realidade e tratam de dar sentido aos fatos. Fiquei feliz. Será que meu filho estaria em enviando uma mensagem como outros fatos que já haviam ocorrido depois de sua partida?
                Comentei com ela os pensamentos que tenho tido e que me sinto como se houvesse vindo à esta vida para despir-me de preconceitos.
“Sinto que estou sendo descascada.” Afirmei. “Como uma árvore do cerrado, sabe? Essas com cascas grossas. Sendo descascada, esfolada até chegar ao cerne.” Ela sorriu e balançou a cabeça concordando. Foi a imagem que me ocorreu para descrever a sensação de que um a um meus preconceitos estavam se desfazendo, mas à custa de muita dor.
“A dor amplia nossa visão da vida.” Disse ela. “É um aprendizado sim, aquele no qual você passa a ver o outro com outros olhos, que passa a ver o mundo com amplitude e o analisa com pensamentos próprios desfazendo-se de ideias pré-concebidas por outros ou pela sociedade de forma geral.”
              Um das maiores e mais difíceis lições a serem aprendidas para mim é, com certeza a aceitação da inevitável morte. Creio que todos temos problemas e tabus relativos a este tema. É o material proibido, a matéria adiada, a verdade desagradável que deve ser evitada  para não nos tirar o conforto que vivemos no momento presente e para nos desviar de confrontarmos aquilo que é natural e faz parte do que compõe o ser humano.
“Posso ler algo que escrevi?” perguntei.
“Claro.” Respondeu ela gentil como sempre.
                "Esta experiência me tem mostrado que a morte está intrínseca à vida assim como a vida à morte. –Comecei - A vida contém a morte. A cada dia, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo ou milésimo de segundo  morremos e, nessa morte está a vida. É como se uma e outra dançassem a mesma música no baile do tempo entrelaçadas e desfrutando uma da companhia da outra. Ambas se co-dependem e uma se vangloria na outra. Não são opostas, como fomos ensinados a crer. São apenas imagem e sombra brincando no carrossel eterno da existência.  Sem a morte não há porque ter vida e sem a vida não existe morte. Essa imagem nublada projetada em nossa mente como o ponto final nada mais é que um refúgio para os cansaços dos viventes. Uma pausa na viagem. Um fôlego antes da batalha."
                “Você descreve aí a dualidade da vida. Não há dia sem noite, alegria sem tristeza, saúde sem doença.” Continuou ela. “O problema é que em nossa sociedade ocidental fomos ensinados o apego. Com o apego vem o amor e com o amor o sofrimento. Esse amor que na verdade não é amor, porque o verdadeiro amor liberta. O amor apego é egoísmo e é doloroso.”
                “Bem, acho que estou progredindo.” Afirmei satisfeita.
                “Tenho certeza que sim.” Confirmou minha sábia terapeuta.
                Quando cheguei em casa procurei pelo pássaro uma vez mais. O encontrei morto sobre o tapete ao lado da cama. Não tinha sinais de ferimentos e ainda estava morno. Seu corpinho frágil estava flexível como se me houvesse esperado para morrer.
                “Veio para morrer perto de  mim.” Pensei. Talvez se tratasse de um pássaro velho ou, quem sabe, estava doente. O fato é que ele queria morrer e veio para morrer perto de mim. Talvez sentisse que eu compreenderia sua partida. E eu sinto que sou a beneficiária de toda esta experiência.
“Será que meu filho veio para morrer perto de mim também?" Me perguntei.
Que imensas lições a vida e a morte nos tem a ensinar. Estamos envoltos neste processo existencial sujeitos a todo tipo de experiência, mas elas somente passarão para nossa alma se forem processadas, aceitas como inevitáveis e somente quando formos capazes de agradecer por elas com sinceridade.
“Eu estou aprendendo muito com o André.” Disse a terapeuta sorrindo enquanto saíamos do consultório naquela manhã. Ela comentava  lembrando a nós duas que esse processo de análise tem a ver com partida dele e sua jornada sobre a terra.

“Eu sei.” -Afirmei orgulhosa- “Ele é muito especial.” 

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