Foi um choque violento para mim. Eu tenho que dizer não só para mim, mas para nós, embora em nosso coração algo nos dizia que aquilo poderia acontecer. Conversávamos sempre sobre ele, sobre sua condição de saúde, mas nada poderia nos dar ideia do que seria saber que ele se foi. Na verdade nem pudemos descrever o que sentíamos na ocasião. Era como se estivéssemos em uma outra realidade. A dor era tão grande e intensa que não poderia descreve-la em palavras. Minha querida filha e eu nos sentimos, de repente impotentes, desamparadas, sós. Nos primeiros dias era como se o tempo houvesse parado e a mesma cena acontecesse vez traz vez em nossa mente. Penso que houve um deslocamento de alma. Aliás, penso que todas as vezes que sofremos um choque sofremos um deslocamento de alma. Para mim as emoções são geradas no campo energético, no corpo sutil e não no corpo físico, assim toda nossa estrutura fica abalada como uma árvore arrancada pela raiz. Eu sentia este colapso. Eu sabia que precisava tempo e precisava viver o processo antes de juntar os pedaços de mim espalhados pelo trauma daquele momento.
A perda é uma condição tão dramática para o ser humano que chega a ser uma tragédia. É a tragédia da vida: A perda. Não falamos muito dela justamente porque dói. Toda e qualquer perda nos causa sofrimento. Seria, em nossa concepção mais básica, como se a vida fosse apenas de ganhos, mas a verdade é que desde o momento de nosso nascimento começamos um processo de perda. Perdemos o aconchego do ventre materno, somos desligados violentamente de nossa unidade com nossa mãe e, a partir daquele momento de nascimento precisamos lutar pela vida. Temos que respirar, que nos esforçar por comer, que lidar com as intempéries do ambiente, com a aspereza de tecidos tocando nossa pele e, ainda assim não nos damos conta que a vida é uma sucessão de ganhos e perdas. Ganhos quando nos alegramos com uma nova vida que chega(sendo que esta vida também está em processo de perda, mas parece ganho para nós), ganhos com nossas conquistas passageiras que cedo ou tarde perderemos, ganhos com relacionamentos, que com certeza durarão um período de tempo nesta dimensão, mas que obviamente perderemos algum dia.
Se a vida é assim, cheia de perdas, por que sofremos tanto quando perdemos alguém que amamos? por que não nos acostumamos a perder?
Sofremos por apego. Sofremos por pensarmos que somos proprietários daquilo que nos foi emprestado.
Me lembro de que numa ocasião em que eu disse a Deus sobre meus filhos: "Deus, eu sei que essas crianças são tuas, não minhas. Eu sei que estão sob minha guarda para amá-las e cuida-las enquanto eu puder. Dê-me portanto condições para cuida-las, Senhor." Ele(ou a energia maior do Universo) atendeu minha oração e me deu condições para seguir em frente no meu papel de cuidar aquelas preciosas vidas que Deus me emprestou por um tempo e eu fiquei imensamente grata. Mas, quando meu filho se foi eu me senti traída por Deus, como se Ele estivesse tirando algo que me pertencia. Não, ele não poderia ser meu. Ele pertence a Deus ao Universo. Ele sempre foi maior do que eu, do que este mundo. Este mundo não cabia sua alma, como poderia eu querer segurá-lo aqui onde ele sofria tão dolorosamente? Ele era(creio que ainda seja e continuará a ser cada vez mais) uma alma nobre. Ele era maior que as pequenezes desta vida e ele ansiava por estar completo como era antes de nascer neste mundo. Então, por que eu queria tanto prolongar seu sofrimento? Ele sofreu de depressão por dez anos. Tentou ao máximo se curar, mas não encontrou a luz no final do túnel, a única luz que encontrou foi a luz de regresso ao Lar. Nós o amamos tanto que sua ausência revelou uma profunda ausência de nós mesmos. Nos apegamos às suas fotos, embora às vezes sequer as pudéssemos olhar. Apegamos às suas roupas e por muitas vezes farejei suas coisas como um cão perdido fareja tentando encontrar o caminho de volta para casa. Éramos um tripé que, apoiando-se um no outro continuávamos a vida, agora falta um dos apoios e temos que aprender a nos apoiar em outras fontes para continuarmos de pé.
Mas por que sofremos tanto? Eu já havia lido que para o Budismo o APEGO é a raiz dos sofrimentos: "Nascer é sofrer, envelhecer é sofrer, morrer é sofrer, estar unido com aquilo de que não gostamos é sofrer, separarmo-nos daquilo que amamos é sofrer, não conseguir o que queremos é sofrer". Para o budismo, todo esse sofrimento ultrapassa o mero desconforto físico e psicológico ao manchar a existência como um todo. Buda, no entanto, não negou a felicidade mundana, mas reconheceu que não podemos ter a expectativa de que ela dure — esse tipo de felicidade é impermanente, insatisfatória e sem essência.
“Sofremos, não porque somos basicamente maus ou porque merecemos ser punidos, mas por causa de três trágicos mal-entendidos. Primeiro, esperamos que aquilo que está em constante mudança seja previsível e possa ser aprisionado. [...] Em segundo lugar, procedemos como se fôssemos separados de todo o resto, como se fôssemos uma identidade permanente, quando, na verdade, nossa situação é ‘sem ego’. [...] Em terceiro lugar, procuramos a felicidade sempre nos lugares errados. O Buda chamou esse hábito de ‘confundir sofrimento com felicidade’, como uma mariposa que voa para a chama”. Segundo Pema Chödrön, em Os Lugares Que Nos Assustam
Eu sei de meu apego às minhas crias. Sei que vivi para eles e por eles. Mas, sei também que sofro da ilusão de que a morte é o fim, de que a separação é eterna e de que eu sou indivíduo separado do todo. Teoricamente eu sei que a morte, assim como o nascimento é apenas uma passagem, que a separação é temporária e que eu e todos nós fazemos parte de um único corpo eterno e eternamente presente. Todavia, ainda que eu tente fazer um "download" desta teoria para minhas emoções minha ilusão humana, racional é forte e me confunde.
Queridos, a separação é ilusão. A perda é ilusão, pois não se pode perder aquilo que se É. Se somos parte do mesmo corpo espiritual, estamos separados apenas na matéria, porém unidos quanto à nossa essência Divina. A separação ocorre porque a dimensão na qual vivemos não nos permite ver o que está ao nosso lado em outra frequência. Aquele que partiu apenas se mudou para outra frequência e, quando chegar nossa vez(com certeza chegará) estaremos na mesma frequência outra vez e assim poderemos nos juntar como se estivéssemos aqui.
O ensinamento de Buda é profundo, pois todos estamos submetidos aos princípios universais e não podemos fugir deles. Se somos parte de Deus então como podemos estar separados? Podemos nos desapegar com segurança sabendo que aqueles que passaram por nossa vida cumpriram seu propósito e estão ligados a nós para sempre. Somos um grupo de almas afins e não há separação eterna. É só uma questão de tempo para que nos reunamos outra vez.
Sentiremos a ausência, choraremos a saudade, mas não há nada neste mundo que possa mudar a grande verdade de que continuamos juntos nessa teia Universal da existência. SOMOS TODOS UM e como UM continuaremos eternamente.
Saiba que seu ente querido está na luz e, na Luz reina apenas a o amor incondicional de Deus, a paz e a aceitação. Na luz não há julgamento, pois julgamento é condição humana. Na Luz existe apenas AMOR.
Que Deus conforte seus corações. E saiba que estamos aqui por você, conte conosco.
Nosso e-mail: associacaoanjosdeplantao@gmail.com



Nenhum comentário:
Postar um comentário