PERDAS E GANHOS
Nenhuma experiência é
vazia, nenhuma jornada é inútil, nenhum sonho é irreal, nenhuma vida é perdida.
Tudo se transforma à luz do amor. Tudo se encaminha para o infinito.
Quando meus filhos nasceram eu
gastei horas intermináveis a admirar aquelas criaturas que, ainda que nascidas
de mim, um ser imperfeito, eram perfeitas. Eram lindas e puras e tinham uma
aura angelical própria das crianças. Traziam também uma sabedoria infinita como
se já houvessem vivido milhares de vidas antes desta. Neles eu via Deus, pois
eles pareciam um milagre. Como algo tão belo, tão verdadeiro, tão divino pode
também ser tão real? E, o que teria eu feito para merecer tamanha bênção?
Aqueles seres perfeitos eram, sem dúvida,
o maior presente que alguém pudesse ganhar em uma vida. Eles representavam
todos os meus sonhos. E assim, este ganho maravilhoso me ajudou a seguir minha
jornada, resumiu minha enorme lista de desejos e fixou meus objetivos na minha
missão.
Eu queria tudo da vida. Tudo, absolutamente tudo, mas meu tudo se
resumia em poucas e simples coisas: queria apenas meus filhos junto a mim, poder
criá-los com dignidade e segurança para a velhice. Estas simples coisas
completariam o círculo de minha existência e
me deixaria perfeitamente feliz.
O que poderia pedir a mais? O que faltaria a alguém que tivesse estas três
simples coisas na vida? Não penso que eu seja diferente de outras mães. Creio que quase
todas compartilhamos o mesmo desejo. Um desejo simples e honesto, aquele que é
basicamente a procissão da vida desfilando em demonstração de fé naquilo que se
espera.
Todavia, a
vida é feita de ganhos e perdas. Enquanto mãe, abri mão de algumas ilusões e
percebi no final que não me fizeram falta. Por outro lado, eu transferia minhas
esperanças e expectativas para o futuro
daqueles que agora estavam aprendendo a andar com suas próprias pernas. Ah, a tão
sonhada independência! Ela parece linda quando se é jovem, porém quando se é
mãe ou pai, a ansiada independência de nossos filhos nos faz estremecer e temos
que aprender tudo de novo. Aprender a estar sós, a recomeçar, a ter confiança
no que lhes ensinamos, a confiar neles, a depender deles. É um caminho de
volta. Não seremos eternamente absolutos, haverá o momento em que nos
tornaremos crianças outra vez e então nossos amados filhos serão nossos pais e
nossos guias no novo mundo cheio de desafios para nós, mas terra firme para
seus pés ágeis e suas asas radiantes. Teremos então perdido o vigor, muito da
ilusão, algo dos sonhos e nos contentaremos em assistir maravilhados nossos
pequenos anjos realizarem os sonhos que antes nos pertenciam.

E, se o
sonho for interrompido? E, se por alguma razão nos for arrancado dos braços
aqueles que amamos? Quando perdemos
um ente querido repassamos a nossa vida. Revemos nossos conceitos, analisamos
nosso comportamento, buscamos a fé onde a deixamos. Não há certeza mais
definitiva que a certeza de que um dia partiremos, contudo nossa mente ilusória
se recusa a aceitar a partida e a sentimos como a maior perda que alguém possa
sofrer. Sim, é uma grande perda, porém a partida é também o encerramento de um
projeto, de um ciclo, daquilo que, aquele que se foi crê que chegou ao fim. A
morte é a entrega de nossas armas, a aceitação final de nossa condição humana,
o encerramento da batalha. É preciso ter consciência de que cumprimos aquilo a
que viemos para morrer. É preciso desistir. É preciso coragem. Se temos que
estar prontos para nascer, temos também que estar prontos para morrer. E, assim
do outro lado, fora do útero físico do corpo, nasceremos para uma nova experiência.
Logo, a morte não é exatamente uma perda, é uma despedida, é um “até logo, até
mais, nos veremos outra vez”. De certa forma há um ganho na morte. Esta perda
fatal nos coloca frente a frente com nossos mais arraigados valores e despidos
de toda arrogância nos colocamos nus diante de nós mesmos e nos vemos com olhos
mais reais. Nos abalamos e nos recolhemos, porém renascemos do luto como a
Fênix renasce das cinzas: mais fortes, mais humanos e porque não dizer: mais
divinos. Nesta hora abrimos nosso coração, rasgamos nosso compromisso com o
rótulo que escolhemos e buscamos a mais pura verdade de nós mesmos.
Um de meus
anjos se foi, mas ele deixou lições preciosas para serem seguidas. Ele ainda me
ensina a cada dia e por ele valeu a pena todo o caminho. Agora, vivendo entre o
céu e a terra, sei que tenho que me lembrar dos que ainda estão aqui, que seguraram
minha mão e que se tornaram a razão para continuar. Essas pessoas maravilhosas
que ainda lutam porque não podem morrer, porque não terminaram sua missão são
seres preciosos, corajosos que precisam de nossa presença e de nosso amor.
Queridos,
que possamos entregar de coração ao Pai amoroso aqueles que partiram, mas que estejamos
atentos para cuidar daqueles queridos que todos os dias nos dão amor e
esperança. Eles são ganhos para o momento presente e companheiros para a
eternidade.
“Que tua
vida amigo, seja sempre para o melhor.
Que o sol aqueça
teu viver
Que a chuva
caia suave no teu lar
E até nos
encontrarmos outra vez
Que Deus te
segure nas suas mãos
Que o Senhor
te proteja e guarde
Que o Senhor
sobre ti levante o rosto e te dê paz”.