domingo, 3 de novembro de 2013

Perdas e ganhos

                                   PERDAS E GANHOS


         Nenhuma experiência é vazia, nenhuma jornada é inútil, nenhum sonho é irreal, nenhuma vida é perdida. Tudo se transforma à luz do amor. Tudo se encaminha para o infinito.
            Quando meus filhos nasceram eu gastei horas intermináveis a admirar aquelas criaturas que, ainda que nascidas de mim, um ser imperfeito, eram perfeitas. Eram lindas e puras e tinham uma aura angelical própria das crianças. Traziam também uma sabedoria infinita como se já houvessem vivido milhares de vidas antes desta. Neles eu via Deus, pois eles pareciam um milagre. Como algo tão belo, tão verdadeiro, tão divino pode também ser tão real? E, o que teria eu feito para merecer tamanha bênção? Aqueles seres  perfeitos eram, sem dúvida, o maior presente que alguém pudesse ganhar em uma vida. Eles representavam todos os meus sonhos. E assim, este ganho maravilhoso me ajudou a seguir minha jornada, resumiu minha enorme lista de desejos e fixou meus objetivos na minha missão.
Eu queria tudo da vida. Tudo, absolutamente tudo, mas meu tudo se resumia em poucas e simples coisas: queria apenas meus filhos junto a mim, poder criá-los com dignidade e segurança para a velhice. Estas simples coisas completariam o círculo de minha existência e  me deixaria perfeitamente feliz.  O que poderia pedir a mais? O que faltaria a alguém que tivesse estas três simples coisas na vida? Não penso que eu seja diferente de outras mães. Creio que quase todas compartilhamos o mesmo desejo. Um desejo simples e honesto, aquele que é basicamente a procissão da vida desfilando em demonstração de fé naquilo que se espera.
            Todavia, a vida é feita de ganhos e perdas. Enquanto mãe, abri mão de algumas ilusões e percebi no final que não me fizeram falta. Por outro lado, eu transferia minhas esperanças  e expectativas para o futuro daqueles que agora estavam aprendendo a andar com suas próprias pernas. Ah, a tão sonhada independência! Ela parece linda quando se é jovem, porém quando se é mãe ou pai, a ansiada independência de nossos filhos nos faz estremecer e temos que aprender tudo de novo. Aprender a estar sós, a recomeçar, a ter confiança no que lhes ensinamos, a confiar neles, a depender deles. É um caminho de volta. Não seremos eternamente absolutos, haverá o momento em que nos tornaremos crianças outra vez e então nossos amados filhos serão nossos pais e nossos guias no novo mundo cheio de desafios para nós, mas terra firme para seus pés ágeis e suas asas radiantes. Teremos então perdido o vigor, muito da ilusão, algo dos sonhos e nos contentaremos em assistir maravilhados nossos pequenos anjos realizarem os sonhos que antes nos pertenciam.
            E, se o sonho for interrompido? E, se por alguma razão nos for arrancado dos braços aqueles que amamos?      Quando perdemos um ente querido repassamos a nossa vida. Revemos nossos conceitos, analisamos nosso comportamento, buscamos a fé onde a deixamos. Não há certeza mais definitiva que a certeza de que um dia partiremos, contudo nossa mente ilusória se recusa a aceitar a partida e a sentimos como a maior perda que alguém possa sofrer. Sim, é uma grande perda, porém a partida é também o encerramento de um projeto, de um ciclo, daquilo que, aquele que se foi crê que chegou ao fim. A morte é a entrega de nossas armas, a aceitação final de nossa condição humana, o encerramento da batalha. É preciso ter consciência de que cumprimos aquilo a que viemos para morrer. É preciso desistir. É preciso coragem. Se temos que estar prontos para nascer, temos também que estar prontos para morrer. E, assim do outro lado, fora do útero físico do corpo, nasceremos para uma nova experiência. Logo, a morte não é exatamente uma perda, é uma despedida, é um “até logo, até mais, nos veremos outra vez”. De certa forma há um ganho na morte. Esta perda fatal nos coloca frente a frente com nossos mais arraigados valores e despidos de toda arrogância nos colocamos nus diante de nós mesmos e nos vemos com olhos mais reais. Nos abalamos e nos recolhemos, porém renascemos do luto como a Fênix renasce das cinzas: mais fortes, mais humanos e porque não dizer: mais divinos. Nesta hora abrimos nosso coração, rasgamos nosso compromisso com o rótulo que escolhemos e buscamos a mais pura verdade de nós mesmos.
            Um de meus anjos se foi, mas ele deixou lições preciosas para serem seguidas. Ele ainda me ensina a cada dia e por ele valeu a pena todo o caminho. Agora, vivendo entre o céu e a terra, sei que tenho que me lembrar dos que ainda estão aqui, que seguraram minha mão e que se tornaram a razão para continuar. Essas pessoas maravilhosas que ainda lutam porque não podem morrer, porque não terminaram sua missão são seres preciosos, corajosos que precisam de nossa presença e de nosso amor.
            Queridos, que possamos entregar de coração ao Pai amoroso aqueles que partiram, mas que estejamos atentos para cuidar daqueles queridos que todos os dias nos dão amor e esperança. Eles são ganhos para o momento presente e companheiros para a eternidade.
 
            “Que tua vida amigo, seja sempre para o melhor.
            Que o sol aqueça teu viver
            Que a chuva caia suave no teu lar
            E até nos encontrarmos outra vez
            Que Deus te segure nas suas mãos

            Que o Senhor te proteja e guarde

            Que o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê paz”.

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