AOS
ANJOS DE PLANTÃO
Por:
Edna de Paula Soares
Este documento
não tem a intenção de culpar a ninguém pelos fatos ocorridos mas, de despertar
a atenção a classe médica(psiquiátrica) no sentido de ter a mente aberta o
suficiente para perceber que a realidade de seu paciente é outra que não a sua
e, que este universo(pelo menos para ele) é real e não imaginário.
Ele não dormiu
naquela noite. Eu ouvia seus pelo passeio que dava para a porta do apartamento. Vi sua sombra quando passou pela janela de meu quarto e pediu para entrar.
Estava ansioso. Queria ligar para duas
de minhas tias às quatro horas da manhã. Pedi que esperasse afinal, elas se assustariam muito com um telefonema no
meio da madruga. - “Tenho que ligar, pois amanhã eles vem me buscar.” Disse ele
com insistência. –“Eles quem, filho?” Perguntei sonolenta. _“A polícia.”
Respondeu. “É mais um delírio” pensei. _
“Deite-se aqui, filho. Tem lugar para você.” Disse eu mencionando o lado esquerdo
de minha cama. - “Não prefiro deitar no sofá.” Acostou-se no sofá por alguns
minutos depois levantou-se, vestiu uma camisa e voltou a caminhar. Ouvi ruídos
na escada e me levantei, mas nada se movia do lado de fora. Mais tarde ele
voltou, acostou-se em minha cama pediu para que eu não fosse trabalhar naquela
manhã e perguntou: -“Mãe, como é que a
gente morre?” Ignorei a pergunta, mas em minha mente vi a corda. A mesma
corda que servira para mover nossos móveis para o andar superior.
Às 5:50 o alarme nos despertou. Ele levantou-se
prontamente, mas eu fiquei um pouco mais
na cama, afinal não iria trabalhar naquele dia a pedido de meu filho. Eu iria
levá-lo a um médico pois ele não parecia bem. Liguei para meu trabalho avisando
de minha ausência. Apanhei o gato no colo e me dirigi ao passeio para então
chegar à escada que dá acesso ao térreo. A paisagem havia mudado. Estava frio e
nublado. O passeio estava úmido e temi escorregar nos degraus molhados da
escada de ferro. O gato saltou de meus braços e me certifiquei de que não
escorregaria. Desci cautelosamente alguns degraus para deparar-me com a cena
mais horripilante que jamais havia visto em toda minha vida.
Ele sempre foi
um jovem saudável e muito, muito bonito. Era inteligente, alegre, atlético.
Tinha os dentes perfeitos como tudo o mais
em seu corpo jovem parecia perfeito.
Tinha sonhos. Gostava de psicologia e era, por natureza, um filósofo. Eu
adorava vê-lo sorrir. Como não? ele amava comédias. Sonhou ser
comediante quando adolescente. As queixas dos professores eram sempre que ele
encontrava motivo para fazer “gracinha” em tudo e que levava os outros alunos a
rirem de coisas que eles, os professores julgavam sérias.
Ele tinha um
futuro brilhante. Mas no meio do caminho nos deparamos com um mal que lhe tirou
o humor, o sonho e a vontade de viver.
Em 2004
iniciamos uma batalha incessante contra o que chamam de depressão.
André, em torno de seus 18 anos apresentou alguns episódios de pânico. Éramos sua irmã, ele e eu. Eu não
podia esperar, havia que cuidar, afinal não deixaria que meu filho sofresse e,
se socorrêssemos a tempo, com certeza não teria nenhuma sequela. Corremos então
para o primeiro psiquiatra. Ele receitou uma medicação com a advertência que se
ele tentasse suicídio deveríamos correr para a emergência. O tal remédio o
deixou prostrado no sofá por um mês sem sequer se mover. Retornamos ao psiquiatra.
Daí em diante começou o pesadelo. O primeiro psiquiatra foi nos Estados Unidos,
onde morávamos então. André,
desorientado e sem perceber nenhuma melhora quis seguir para outro país, pois
acreditava ser a pressão da vida ali que estaria causando seu problema. Fomos,
então, em busca de refúgio no país de seu pai, a Espanha. Continuamos nossa
busca por solução. Alguns psiquiatras pensavam que ele poderia ter DESORDEM
BIPOLAR e receitavam as drogas para alívio dos sintomas. Um outro, porém disse
que não parecia ser este o problema e deveria analisar com mais cautela. Felizmente
o tratamento na Espanha era inteiramente gratuito, mas infelizmente o médico
entrou de férias e não pode continuar o tratamento.
Após esta
odisseia voltamos para casa no Brasil. A princípio pagávamos R$300,00(o
equivalente a dois terços de um salário mínimo) por uma consulta cujo valor
aumentou com o passar do tempo e nas quais o psiquiatra não conseguiu nenhum
progresso e nós, a irmã e a mãe do André, fazíamos incansáveis pesquisas para
compreender o que se passava com ele. Um dos médicos me disse que a classe
médica não gosta que as pessoas venham a seus consultórios com informações que
pesquisaram previamente. Ele me fez perceber que prefere que seus pacientes
vivam na ignorância. Obviamente o médico não convive tão de perto com o
paciente não sendo possível identificar todas as nuances do comportamento do mesmo.
A enfermidade
piorou. Contudo externamente ninguém diria que ele e estava sofrendo, pois sua
aparência era de um homem saudável e continuava bonito como sempre. Tinha até
sido modelo fotográfico numa ocasião.
Foi quando marcamos uma consulta com um renomado psiquiatra de Goiânia e
tentamos continuar o tratamento com ele. De certa feita ele disse a meu filho: _“Deixe
disso. Você é jovem, bonito. Vá procurar garotas e se divertir.” Ele ignorou por
completo a dor de seu paciente. André
saiu do consultório desolado sem saber a quem recorrer. Um outro me disse
quando perguntei o que fazer: _“Você não está vendo que seu filho é
psicótico?”
E fechou a porta atrás de mim. Obviamente eu estava vendo, por isso estava ali.
Continuamos
nossa jornada incansavelmente. Dias, semanas, meses e anos se arrastavam sem
que encontrássemos solução. A dor e medo eram imensos. Era como se estivéssemos
lutando entre a vida e a morte e muitas
vezes sentíamos que ele apenas vegetava. Isto foi quando um médico receitou uma
certa medicação. A mais “moderna e eficaz” no tratamento da ESQUIZOFRENIA. A
mais cara também. Recolhi todo dinheiro que tinha, já muito pouco, pois os
gastos eram muitos, e, paguei o tal
remédio. Por dois ou três dias parecia que os sintomas estavam desvanecendo,
porém após essa curta trégua André dormiu. Esteve dormindo por cerca de quatro
meses seguidos despertando somente depois de muita insistência para que ele comesse
algo, ou quem sabe, tomasse um banho. Voltava a dormir. Passava cerca de vinte
e duas horas dormindo por dia. Considerei que estava num estado de semicoma,
mas nenhum médico nos ouvia verdadeiramente. Era como se falássemos idiomas
diferentes. Toda vez que entrávamos em um consultório o psiquiatra logo
diagnosticava sem nem mesmo prestar atenção ao que tínhamos a dizer, e, muitas
vezes sem sequer levantar a cabeça e nos olhar nos olhos. Notamos a arrogância
e o descaso de alguns profissionais e a ambição de outros. Eles não atendiam
bem seu paciente principalmente se fosse consulta de retorno, pois no retorno
não há necessidade de novo um pagamento. Desesperamo-nos. A quem recorrer?
Enquanto
internado por um mês e dez dias ficamos sabendo do tratamento de saúde mental
do município foi então que encontramos algum alívio. Um médico, a quem não
pagamos sequer um centavo nos ouviu com atenção. Começamos então um tratamento
mais eficiente. André não era esquizofrênico. Parecia sofrer de DEPRESSÃO PARANOICA. Por algum tempo tomou SERTRALINA e mudou
completamente o humor. Cantava, se barbeava, banhava-se com frequência e chegou
a voltar a trabalhar depois de estar acamado por um ano e meio.
Mas, infelizmente o ditado “tudo o que é bom,
dura pouco” foi verdadeiro em seu caso. Devido estar em melhores condições não
poderia mais ser atendido pela equipe que o estava atendendo e deveria então
ser transferido para outro centro de tratamento. Relutamos, dissemos que não, suplicamos.
Mas, a maldita burocracia dizia que seu caso estava encerrado ali. Ele não
aceitou a mudança, mas não pode fazer nada.
Não é
necessário dizer que seus sintomas retornaram e que ele piorou gravemente
embora ainda tentasse trabalhar e viver. Uma vez ou outra murmurava uma canção. Uma vez
ou outra se banhava ou se barbeava, porém sua dor e seu isolamento se
intensificavam a cada dia. Estávamos perdendo nossa luta. Ele dizia que se lembrava de fatos que haviam ocorrido dos
quais nem sua irmã nem eu nos lembrávamos. Eu lhe dizia que eram apenas seus
pensamentos. Ele respondia: _ “Não, eles apagaram a sua memória. Isto de fato
aconteceu, eu me lembro.” Em um local de
tratamento espiritual nos disseram que ele se lembrava de fatos de vidas
passadas com muita intensidade e os confundia com o presente. André me
perguntava: -“Será que hipnose não me ajudaria?” Quem sabe? Talvez
uma simples Hipnose e Regressão o houvesse ajudado, como alguns médicos estão tentando em alguns
países. Por que os médicos são tão incrédulos?
Não foi falta
de fé, nem de oração. Foi falta de desejo de lutar por parte dos que o atenderam. Foi o academicismo e a frieza com que foi
tratado. Compreendo que a medicina ainda não entenda o que seja a depressão.
Compreendo que os psiquiatras queiram
manter seu status, mas nenhum deles compreende a dor de uma mãe ao encontrar,
numa manhã fria e nublada, o corpo de seu filho dependurado. André se foi. Ele
não queria se matar, queria matar a dor. Ele queria viver. Ele só queria ser normal.
E, na manhã de
23 de julho e 2013 a Polícia este em nossa casa e levaram seu corpo para o IML.
O único
escrito que deixou foi uma lista que havia feito, a meu pedido, sobre o que ele
queria dizer aos médicos, porém nunca foi dito porque nenhum deles quis
escutar. Esta é a lista: Tenho medo. Sensação de desespero. Medo de morrer,
medo de andar na rua, medo de que minha mãe morra, medo que o futuro de minha
irmã seja incerto, medo de ir preso sem cometer crime, medo de cometer crime,
medo de ofender as pessoas...
Aos cinco anos
de idade ao escrever uma redação sobre profissões a pedido da professora André escreveu:
“Os médicos são anjos que Deus nos dá para aliviar nossas dores quando
precisamos deles.” Esses anjos lhe falharam
quando ele os suplicou por ajuda ou, talvez não estivessem de plantão.
Ainda me sinto
como se estivesse aprisionada em um pesadelo do qual não consigo sair. É a
primeira coisa que me lembro quando abro os olhos pela manhã, a última antes de
dormir e muitas outras vezes durante dia. Às vezes finjo que esqueci para não
incomodar os demais. Só o tempo dirá o
que fazer desta dor.
Senhores
psiquiatras de plantão, DEPRESSÃO MATA.
Acreditem. Vocês portadores de licença para tratar as doenças da alma deveriam
ouvir mais, presenciar mais, amar mais. Os deprimidos estão sós. Eles precisam
de socorro. Eles precisam de alguém com coração. Basta de dopar aquele que sofre.
Não sabemos o que se passa na cabeça dessas pessoas “diferentes”. E se eles
estiverem dizendo a verdade?
E se eles estiverem, de fato, vendo coisas que não vemos? E se eles estiverem
divididos com corpo na terra porém atados a uma dimensão desconhecida para nós
como a Ciência Quântica está começando a
entender?
Por favor, não deixem de buscar,
não deixem de ouvir e, principalmente não deixem de olhar nos olhos de seu
paciente. Não deixem outros partirem sem que se tenha esgotado todas as possibilidades.
O que se sabe, já se sabe, por favor, busquem o que não se sabe. Pesquisem,
acreditem em seus pacientes, sintam seus corações, percebam seu olhar.
Em memória de André, um jovem íntegro, de bom caráter e um grande
coração que tinha apenas 27 anos de vida quando desistiu de lutar.
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