domingo, 8 de dezembro de 2013

O que os olhos não veem

        O que os olhos não veem
                                                   Por: Edna de Paula Soares

Um dia meu filho me disse que ao fazer uma prova de vestibular deveria comentar o sobre o livro VIDAS SECAS de Graciliano Ramos. "Sabe mãe, o texto descreve a vida dura de retirantes. Ele descreve como eles viviam. Havia uma cadela chamada Baleia que ficava deitada debaixo do fogão nas cinzas quentes esperando apenas a hora da morte. Então eu decidi escrever sobre ela, a cachorra Baleia. Fiz um paralelo entre ela e os drogados que vivem jogados pelas ruas. Eles são esquecidos e completamente marginalizados como aquele animal, sem esperança, sem objetivo, sem vontade de viver. Vivem esperando apenas a hora da morte". Eu me emocionei com o que ele me contou e me perguntei de onde vinha tamanha sensibilidade e tamanha percepção? Com o tempo percebi que seus olhos viam coisas que os meus ignoravam. Ignoravam por pura inconsciência, por preconceito, por preguiça, por minha educação, pela religião que me ensinou que todos estes “viciados” estão perdidos. E, por perdidos queriam dizer condenados ao inferno. Fui doutrinada a evitar tais pessoas. Nada de conviver com “mulheres de vida fácil”, viciados de qualquer espécie, gente suspeita de não ser honesta. A questão é que nossos olhos não são capazes de ler o coração das pessoas. As vemos apenas exteriormente e as medimos conforme nossos conceitos ou preconceitos. André não era assim. Ele olhava e VIA as pessoas em suas diferentes condições. Seus olhos viam os seres humanos banidos da sociedade e da sorte por detrás dos trapos e das drogas.
Depois que passei a ouvir o que ele dizia percebi que aqui, nesta Terra, nesta vida vivemos o céu e o inferno. Como podemos condenar ainda mais alguém que já está no inferno? Ou será que ao vermos, ainda que pela televisão, locais como a cracolândia não temos a impressão que estamos tendo uma visão de um Umbral, ou um Hadis(lugar dos mortos), ou um purgatório? Por que somos tão indiferentes aos que sofrem? Por que não podemos nem por um instante perceber a solidão de nosso irmão no abandono das drogas? Por que não podemos por um só momento sentir o frio e a fome daqueles que não tem o aconchego de um lar? Por que não ouvimos o choro das crianças abandonadas? Ou até mesmo de animais largados à própria sorte? Somos enfeitiçados para não ver. Somos treinados para ignorar. Criamos desculpas para não perceber. Poucos têm olhos para ver tais verdades e, a estes chamamos loucos. Mas loucura maior é passar pela vida encantados pelo brilho temporário de nossos tesouros ignorando a miséria à nossa porta.

Hoje eu tento praticar o exemplo do André que, na realidade são os ensinos de Jesus postos em prática. Ele dizia: "Quero respeitar TODAS as mulheres, não importa quem sejam. Quero ser gentil para com todos sem distinção". E ainda me dizia com frequência: "Mãe, não julgue a ninguém pois você não sabe o que se passa em seus corações. Não julgue a um drogado ou andarilho, ele nada mais tem e aguarda  apenas a hora da morte." Esse André foi um anjo de luz que Deus pôs em minha vida.


Todas as vezes que cumprimento meus vizinhos pela manhã,  ou faço algo por  um pedinte ou sou amável com alguém que anda sem rumo vejo que estou seguindo seu exemplo. Ele sabia que a vida verdadeira não é esta de desilusões e diferenças  sociais. Nem a vida de descaso pelos que julgamos menos afortunados, nem a vida de disputas que vivemos a cada minuto, mas que a vida verdadeira é aquela que nos iguala e para a qual caminhamos todos, cada qual em seu ritmo, mas sem dúvida todos chegaremos lá.

Está chegando o Natal. Neste dia muitos estarão com frio, fome, desabrigados e necessitados de um sorriso amigo.
Queridos, que neste Natal abramos nossos olhos e vejamos nosso irmão, quem quer que seja ele. Vejamos com nossos corações, com nossa alma. Que possamos dar a nós mesmos este presente, o presente de ver com os  olhos do Cristo. 

Obrigada André, eu sou uma pessoa melhor hoje porque tive você em minha vida.


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